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Trégua entre Trump e Xi afetará as exportações de soja brasileira para a China

Xi prometeu a retomada imediata das compras de produtos agrícolas dos EUA, que são o maior concorrente internacional do agronegócio brasileiro. Em razão das barreiras impostas pela China à soja americana, as exportações do produto brasileiro ao país asiático cresceram 20% em 2018

Cláudia Trevisan

Enquanto os Bolsonaros destilam barbaridades sobre a suposta motivação ideológica das exportações para a China, Donald Trump e Xi Jinping fecham um acordo que afetará em cheio as vendas de soja brasileira para o país asiático. No encontro que tiveram na noite de sábado em Buenos Aires, os dois presidentes declararam uma trégua de 90 dias na guerra comercial que travam desde julho.

 

Xi prometeu a retomada imediata das compras de produtos agrícolas dos EUA, que são o maior concorrente internacional do agronegócio brasileiro. Em razão das barreiras impostas pela China à soja americana, as exportações do produto brasileiro ao país asiático cresceram 20% em 2018 e prometem bater recorde histórico até o fim do ano.

A trégua entre os presidentes das duas maiores economias do mundo deve reverter esse cenário. A China voltará a comprar soja dos agricultores dos EUA, que estocaram montanhas do produto em razão das retaliações de Beijing às tarifas impostas por Trump.

 

Graças à correspondente do Estadão em Washington, Beatriz Bulla, nós soubemos na semana passada como Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente eleito, vê o comércio com a China. “É o maior parceiro do Brasil não por causas naturais, mas porque nossos ex-presidentes quiseram fazer isso. Se trabalharmos para deixar o mercado livre e com políticas liberais, os Estados Unidos estarão de volta como principal parceiro comercial do Brasil”, disse a uma plateia de executivos em Washington.

A declaração revela ignorância profunda sobre os movimentos tectônicos provocados pela ascensão da China e ingenuidade em relação ao potencial do mercado americano. A China se transformou no maior parceiro comercial do Brasil e de grande parte do mundo porque cresceu a taxas anuais de dois dígitos por quase quatro décadas, durante as quais tirou 800 milhões de pessoas da probreza.

Os chineses passaram a consumir mais produtos agropecuários, e o Brasil tem vantagens comparativas para suprir essa demanda. Isso não foi “escolha” de nenhum governo, mas sim influência das forças de mercado exaltadas por Eduardo Bolsonaro. Os EUA também exportam quase toda sua produção de soja para a China e não se pode acusar o país de afinidade ideológica com Pequim. O Brasil tem uma agenda importante de aumento do valor agregado e da competitividade de suas exportações para todos os países, e essa deveria ser uma das prioridades do novo governo.

A trégua de Buenos Aires está longe de solucionar a guerra comercial, mas evitará o seu agravamento. Trump concordou em suspender o aumento de tarifas de 10% para 25% sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas que entraria em vigor em 1º de janeiro.

Nos próximos 90 dias, os dois lados tentarão chegar a um acordo sobre questões espinhosas que vão muito além de exportações e importações. Os EUA querem mudanças estruturais em políticas industriais da China, entre as quais a transferência forçada de tecnologia por empresas americanas que atuam no país. Também demandam proteção à propriedade intelectual e acesso de investimentos de suas companhias a setores da economia chinesa que hoje são fechados a estrangeiros. Se não chegarem a um entendimento, Trump promete impor o aumento de tarifas que foi suspenso em Buenos Aires.

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