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BRAZIL - FEBRUARY 08:  Flags fly outside the Bolsa De Valores De Sao Paulo (Sao Paulo Exchange), or Bovespa, in Sao Paulo, Brazil, on Friday, Feb. 8, 2008. Brazil's main stock index rose for the first time in three days, led by commodity producers, as oil and metals prices gained on the prospect of sustained demand even as the U.S. economy slows.  (Photo by Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images)
BRAZIL - FEBRUARY 08: Flags fly outside the Bolsa De Valores De Sao Paulo (Sao Paulo Exchange), or Bovespa, in Sao Paulo, Brazil, on Friday, Feb. 8, 2008. Brazil's main stock index rose for the first time in three days, led by commodity producers, as oil and metals prices gained on the prospect of sustained demand even as the U.S. economy slows. (Photo by Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images)

Escalada do dólar pode afetar preços, empresas e cortes de juros

 

O estopim da alta ocorreu na segunda-feira, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse em evento em Washington (EUA), que ‘é bom o mercado se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo’

Marcia De Chiara, O Estado de S.Paulo
A disparada do dólar, que beirou R$ 4,28 hoje e fechou cotado a R$4,24, depois de dois leilões do Banco Central para conter o avanço, deve ter impacto em preços importantes do dia a dia dos brasileiros. A gasolina e o diesel, por exemplo, podem ficar mais caros e contaminar outros preços, e a viagem internacional de férias de fim ano pode não passar de um sonho.
 
Para as indústrias exportadoras e que sofrem com a concorrência dos importados, esse avanço pode ser positivo para as vendas externas e para tomar o lugar dos importados no mercado doméstico. Mas as empresas que usam matérias-primas e componentes estrangeiros e o comércio varejista que compra itens de Natal no exterior, o custo das mercadorias deve subir. O repasse para os preços pode ser inevitável, apesar de a inflação andar bem comportada. A pressão crescente do dólar nos preços pode até mexer na condução da política monetária do Banco Central e interromper o ciclo de corte de juros básicos no ano que vem, preveem economistas.

A escalada do câmbio levou o BC fazer nesta terça-feira, 26, dois leilões de moeda para conter a cotação. O estopim da alta ocorreu na segunda-feira, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse em evento em Washington (EUA), que “é bom o mercado se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo”. O comentário do ministro  soou para o mercado como uma indicação de que não existe preocupação com o atual patamar de câmbio. E a interpretação foi de que o BC não iria atuar, segundo avaliação feita pela economista da CM Capital Markets, Camila Abdelmalack, à Reuters.

Apesar de a fala do ministro ter desencadeado o repique do câmbio, não é de hoje que a cotação da  moeda americana anda pressionada. “O dólar lá fora está muito forte contra o euro, conta libra esterlina e outras moedas”, afirma o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do FGV IBRE.

Ele aponta vários fatores externos, como crescimento dos EUA acima da média de outros países, a guerra comercial entre China e EUA e a maior remuneração paga pela bolsa americana, para que o dinheiro saia do País. “Isso explica porque o dólar foi de R$ 3,5 para mais de R$ 4”, diz Castelar, acrescentando que esse cenário é comum a todos os países emergentes.

No entanto, existem fatores peculiares ao País, como os juros na mínima histórica, ressalta o economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e sócio da GO Associados. “O juro em baixa atrai menos capital de curtíssimo prazo, porque o diferencial de taxas hoje é menor.” Ele lembra também que há uma contração no comércio internacional que prejudicou o saldo da balança comercial, o que pressionou o câmbio.

Juros na mínima histórica no Brasil têm feito as empresas  trocarem financiamentos externos pelos domésticos, que são mais baratos, diz o economista Antonio Madeira, da MCM. As companhias compram dólares internamente, o que pressiona a cotação da moeda, e enviam os recursos ao exterior para quitar dívidas, tornando o saldo financeiro mais deficitário.

Castelar acrescenta a esse fluxo financeiro a saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira. Eles estão tirando o dinheiro porque o crescimento da economia não veio no ritmo esperado e existe muita preocupação com os  movimentos políticos que ocorrem no Chile e Bolívia e com as  mudanças de política econômica na Argentina. “Existe um certo receio por conta da incerteza política”, resume.

Selic

Apesar de a inflação estar bem comportada, economistas acreditam que a escalada do câmbio deve reduzir a perspectiva de o BC continuar baixando juros no ano que vem. Castelar pondera que o câmbio não impacta a inflação como no passado, mas tira um pouco do conforto do BC para cortar juros. Mesmo assim, ele acredita que o corte da Selic em 0,5 porcentual sinalizado para dezembro será mantido.

Essa também é a avaliação do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, que não vê reduções da Selic além do patamar de 4,5% esperado após o corte da reunião do mês que vem.

Para Gesner, o ciclo de queda dos juros está chegando ao seu final, mas ele acredita que, com o avanço do câmbio, o BC deve esperar para ver como a economia vai reagir antes de prosseguir nas reduções da Selic em 2020. É que há risco de pressões inflacionárias.

Virada

Mesmo com o susto de o câmbio ter batido R$ 4,27 hoje, superando as projeções mais pessimistas,  economistas acham que o cenário pode  mudar no ano que vem e o dólar recuar.

Para Castelar, três coisas que podem fazer o câmbio cair em 2020. Um desses fatores é que o banco central americano já começou a emitir moeda e existe a perspectiva de alguma trégua na guerra comercial entre EUA e China. Ambos fatores, diz o economista, desvalorizam o dólar.  Além disso, a economia americana pode desacelerar também e tirar o impulso da moeda.

Mas se a economia brasileira começar a crescer mais rápido, a perspectiva é que ela volte a atrair dinheiro e se tornar mais interessante para investir , assinala Castelar.  “Se houver uma continuidade das reformas e uma aceleração e as expectativas domésticas continuarem melhorando, eventualmente, poderíamos ter uma mudança desse patamar do câmbio para baixo”, afirma Gesner. /Colaboraram Ricardo Leopoldo e Beatriz Bulla, correspondentes

 

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