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Provocações à China são gratuitas e irresponsáveis, diz Sérgio Amaral

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

Para Amaral, que até junho chefiou a embaixada brasileira em Washington, o Brasil sofrerá impacto econômico da briga com os chineses. “Os asiáticos evitam a confrontação e um diálogo mais agressivo, mas eles agem. Não seria surpresa que, dentro de alguns meses, haja redução das importações de soja”, disse. A seguir, trechos da conversa do diplomata com o Estado.

Como o sr. avalia a tensão recente entre Brasil e China?

Há preocupação com essas provocações gratuitas. Já é a segunda em pouco tempo. Além de serem gratuitas, são irresponsáveis, porque ignoram o dano que provocam às relações entre Brasil e China. Elas têm também um lado esquizofrênico. De um lado, o governo constrói, com a ministra Tereza Cristina (da Agricultura), o lado do agronegócio. O comércio está aumentando, os problemas estão se resolvendo. Na área de infraestrutura, o ministro Tarcísio (Gomes de Freitas) desenvolveu projetos grandes que podem aumentar nossa produtividade. Mas quem vai investir no Brasil neste momento? São os chineses. Quem pode continuar comprando o volume que temos exportado do agronegócio? Os chineses. Então, se de um lado o governo constrói, do outro destrói, através de um ministério que não tem envolvimento relevante na relação com a China.

Qual o impacto comercial dessas provocações para o Brasil?

Isto é um problema maior, porque já podemos sofrer um abalo na nossa capacidade de exportação. Primeiro, em razão da trégua comercial entre EUA e China, em que os chineses foram obrigados a comprar US$ 32 bilhões adicionais dos EUA. O Brasil, que havia se beneficiado da guerra comercial, agora terá seu comércio desviado em favor dos EUA. Nós já perderíamos US$ 10 bilhões em dois anos com essa mudança. Outro ponto é que o mundo entrará em recessão e, portanto, haverá redução da demanda por commodities. Ou seja, se não houvesse nenhum problema, já teríamos dificuldade em exportar. Agora, ficou ainda pior.

A China exporta equipamentos médicos. O Brasil pode perder na negociação por produtos disputados por vários países?

São negociações comerciais. Existem problemas de logística, de pagamento. Mas não existe por parte do governo chinês qualquer diferença em relação aos fornecimentos para o Brasil. As compras individuais são operações de mercado. O que existe é uma grande disputa e é possível que alguns países que tenham relação mais próxima obtenham vantagem. A China vendeu equipamentos para o mundo inteiro. Neste momento, fazer uma provocação ao governo chinês não é uma prática inteligente, nem compatível com os interesses do País.

A última provocação do Brasil teve uma resposta dura da China. Isso pode ser contornado como foi em outras ocasiões?

Desta vez é mais grave. No caso de Eduardo Bolsonaro, ele é um deputado, não fala necessariamente em nome do governo embora seja evidente a relação com o presidente. Neste caso, (Weintraub) é um membro do governo que fez uma provocação inútil e gratuita. A resposta foi a mais dura possível dentro do padrão ameno das respostas. O embaixador da China qualificou a atitude como “forte indignação”. Países asiáticos evitam a confronto, mas agem. Não seria surpresa que, dentro de alguns meses, haja redução das importações de soja, ou que sejam impostas barreiras sanitárias a nossas exportações de carne. Não acredito que essa situação seja resolvida com o tempo.

 

 

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