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Vacas que seriam leiloadas para ressarcir desvio da Prefeitura de Ribeirão Preto são achadas mortas

Vacas holandesas que seriam leiloadas para ressarcir parte do desvio de R$ 45 milhões dos cofres públicos de Ribeirão Preto (SP), durante a gestão da ex-prefeita Dárcy Vera (sem partido), foram encontradas mortas em Cajuru (SP) na tarde desta sexta-feira (14).

Segundo apuração da EPTV, afiliada da Rede Globo, ao menos 50 animais morreram de destruição nas últimas três semanas. Todos estavam na fazenda da ex-advogada do Sindicato dos Servidores Municipais Maria Zuely Librandi, condenada a 14 anos de prisão.

Com a condição de não serem identificados, vizinhos relataram que a maioria do gado leiteiro que já morreu está sendo enterrada pelos funcionários da fazenda. Um bando de urubus que rodeiam a propriedade confirma que há animais mortos no local.

Ao menos dez carcaças foram flagradas pela reportagem da EPTV na propriedade. A suspeita é que os animais morreram há quase um mês. As vacas que sobreviveram estão muito abaixo do peso ideal, com sinais visíveis de desnutrição e descuido.

A empresa contratada para leiloar o gado já havia apontado que parte dos animais está desnutrida e sem vacinação adequada, e gastou R$ 31.141 mil – despesa que será abatida do valor final do leilão – para comprar medicamentos, vacinas e alimentação.

Para a força-tarefa da Operação Sevandija, a fazenda de 98 hectares em Cajuru, avaliada em R$ 1,7 milhão, foi comprada com parte do dinheiro desviado da Prefeitura para ser dividida entre os réus, com o término do mandato de Dárcy Vera.

Com a condenação dos réus, no último dia 5 de setembro, a propriedade e tudo o que está dentro dela, incluindo equipamentos de ordenha mecanizada e os animais, deve ser leiloado para ressarcir os danos causados aos cofres públicos.

Fiel depositário, o advogado Leandro Librandi, filho de Maria Zuely, disse que não é responsável por cuidar do gado que está na fazenda.

Animais na fazenda de Maria Zuely Librandi em Cajuru, SP — Foto: Carlos Trinca/EPTV Animais na fazenda de Maria Zuely Librandi em Cajuru, SP — Foto: Carlos Trinca/EPTV

Animais na fazenda de Maria Zuely Librandi em Cajuru, SP — Foto: Carlos Trinca/EPTV

Condenação

Presa desde maio do ano passado, a ex-prefeita de Ribeirão Preto Dárcy Vera foi condenada a 18 anos e nove meses de prisão por agir no esquema que desviou R$ 45 milhões dos cofres públicos, a partir do pagamento indevido de honorários à Maria Zuely Librandi.

Personagem central do esquema de desvio de recursos, segundo a Justiça, a ex-advogada do Sindicato dos Servidores Municipais Maria Zuely foi sentenciada a 14 anos e oito meses de prisão.

Acusado de fraudar os cálculos para que Maria Zuely recebesse o valor indevido, o ex-secretário de Administração Marco Antônio dos Santos foi condenado a 18 anos, nove meses de reclusão.

O ex-advogado do Sindicato Sandro Rovani e ao advogado André Hentz, que representou Maria Zuely em ação contra a Prefeitura, também foram condenados a 14 anos de prisão.

Como respondeu ao processo em liberdade, Hentz poderá recorrer da pena solto, mas não poderá se ausentar do município por mais de oito dias e deverá se apresentar à Justiça mensalmente.

Delator do esquema, o ex-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais Wagner Rodrigues foi condenado a 11 anos de prisão em regime aberto. Ele também perdeu o cargo junto à Prefeitura.

A ex-advogada do Sindicato dos Servidores de Ribeirão Preto Maria Zuely Alves Librandi — Foto: Reprodução/EPTV A ex-advogada do Sindicato dos Servidores de Ribeirão Preto Maria Zuely Alves Librandi — Foto: Reprodução/EPTV

A ex-advogada do Sindicato dos Servidores de Ribeirão Preto Maria Zuely Alves Librandi — Foto: Reprodução/EPTV

O esquema

Inicialmente, os investigadores suspeitavam que agentes públicos exigiam que Maria Zuely – que representou os servidores na ação movida em 1997 e reivindicava perdas salariais do Plano Collor – pagasse propina para receber os valores que lhe eram devidos na causa.

Entretanto, documentos apontaram que, na verdade, houve um acerto entre as partes muito antes da decisão judicial. Para o Gaeco, o acordo só ocorreu para que o valor total dos honorários, cerca de R$ 69,9 milhões, fosse desviado dos cofres públicos e dividido entre os envolvidos.

Em delação premiada ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público (MP), o ex-presidente do Sindicato Wagner Rodrigues deu detalhes sobre as planilhas apreendidas durante a Operação Sevandija.

Em um dos trechos da documentação, Rodrigues afirma que foram acertados os pagamentos de R$ 7 milhões para a ex-prefeita, R$ 2 milhões para Marco Antônio e R$ 11,8 milhões para serem divididos entre ele e Sandro Rovani.

A ex-prefeita de Ribeirão Preto Dárcy Vera em audiência no Fórum de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução A ex-prefeita de Ribeirão Preto Dárcy Vera em audiência no Fórum de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução

A ex-prefeita de Ribeirão Preto Dárcy Vera em audiência no Fórum de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução

Segundo o Ministério Público, o contrato firmado para que Maria Zuely trabalhasse para o Sindicato excluía qualquer possibilidade de cobrança de honorários por parte da advogada.

Entretanto, em 2003, após o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) dar ganho à causa movida por 3,5 mil funcionários públicos contra a Prefeitura, Maria Zuely entrou em uma disputa para receber os valores que alegava serem seus por direito.

A advogada contratou André Soares Hentz para representá-la na ação de cobrança dos honorários na Justiça. A causa sofreu consecutivas derrotas, até que os recursos em primeira e segunda instâncias foram esgotados.

A partir da delação premiada de Wagner Rodrigues, a força-tarefa da Operação Sevandija apreendeu provas de que Maria Zuely e Hentz procuraram os outros envolvidos e passaram a prometer vantagens para que pudessem receber o dinheiro.

Lista aponta suposta contabilidade da propina no governo de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução/EPTV Lista aponta suposta contabilidade da propina no governo de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução/EPTV

Lista aponta suposta contabilidade da propina no governo de Ribeirão Preto — Foto: Reprodução/EPTV

Em reuniões na Prefeitura de Ribeirão Preto e no escritório do advogado André Hentz, Sandro Rovani, Wagner Rodrigues e Marco Antônio dos Santos definiram como seria feito o “termo de aditamento de acordo” para incluir o pagamento dos honorários à Maria Zuely.

Ainda de acordo com o delator, o documento foi assinado pela prefeita Dárcy Vera no gabinete na Prefeitura. Para a Justiça, a ex-chefe do Executivo tinha pleno conhecimento da manobra feita para garantir os pagamentos para que o grupo fosse privilegiado.

Rodrigues informou que a ata de uma assembleia realizada no dia 20 de março de 2012 foi adulterada por ele e pelo então advogado do sindicato, Rovani. Isso porque, em votação anterior, os servidores já haviam decidido que não pagariam honorários advocatícios.

O termo de aditamento previa redução dos juros de mora de 6% para 3%, e esse valor seria destinado à Maria Zuely, cerca de R$ 58 milhões. Entretanto, o então secretário de Administração se utilizou de um jogo de planilhas e elevou o valor para R$ 69 milhões.

Ainda segundo o juiz da 4ª Vara Criminal de Ribeirão, os documentos apresentados induziram a Justiça a erro e o pagamento dos honorários milionários foi autorizado.

Com isso, a quadrilha manteve os desvios planejados por anos a fio, inclusive porque o desvio do dinheiro público foi executado em parcelas mensais e o plano criminoso exigiu cumplicidade e organização de janeiro de 2009 a agosto de 2016.

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