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Disparidade de pescarias de salmão no Alasca alarma comunidade e pesquisadores

Victoria Petersen, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

No verão [no hemisfério norte], os pescadores do maior habitat de salmão selvagem do mundo retiraram um recorde de 65 milhões de salmões sockeye da baía de Bristol, no Alasca, batendo o recorde de 2018 em mais de 3 milhões de peixes.

Mas, no rio Yukon, cerca de 800 quilômetros ao norte, os salmões estavam assustadoramente em falta. A pesca foi a mais baixa já registrada, com apenas 153 mil peixes contados no rio pelo sonar da Pilot Station – um contraste gritante com o 1,7 milhão no ano passado. A pesca do salmão-rei também foi dramaticamente baixa – a terceira menor já registrada.

A disparidade entre as pescarias é preocupante – um possível termômetro das consequências caóticas das mudanças climáticas; da competição entre peixes selvagens e de incubação; e do descarte da pesca comercial.

“É uma coisa que nunca vimos antes”, disse Sabrina Garcia, bióloga pesquisadora do Departamento de Pesca e Caça do Alasca. “Acho que estamos começando a ver transformações devido às mudanças climáticas. Vamos continuar a ver mais transformações, mas precisamos de mais anos de dados”.

A pesca escassa teve efeito cascata para as comunidades ao longo do rio Yukon e seus afluentes – os rios Andreafski, Innoko, Anvik, Porcupine, Tanana e Koyukuk – resultando num golpe devastador para as pessoas que dependem do salmão como alimento básico, como alimento para cães de trenó e como uma tradição cultural de milênios.

“Temos mais de 3 mil quilômetros de rio e nossos números estão muito baixos”, disse Serena Fitka, diretora executiva da Associação de Pesca do Rio Yukon. “Onde estão todos os nossos peixes? Esta é a questão que está pairando sobre a cabeça de todos”.

Como os níveis criticamente baixos de salmão chinook e chum não atendiam às metas de preservação do estoque, o Departamento de Pesca e Caça do Alasca proibiu a pesca de subsistência, comercial e esportiva em todo o Yukon, deixando quase cinquenta comunidades praticamente sem salmão.

“Quando temos um desastre dessa magnitude, onde as pessoas estão preocupadas com sua segurança alimentar, estão preocupadas com sua segurança espiritual, estão preocupadas com a capacidade das gerações futuras de continuar nosso modo de vida e cultura – nossa liderança fica muito aflita”, disse Natasha Singh, que é conselheira geral da Conferência de Chefes de Tanana, uma organização tribal que representa 42 vilarejos de uma região do interior do Alasca quase do tamanho do Texas. “Nosso povo está muito aflito. Eles querem continuar as culturas atabascanas. Querem continuar sendo nativos – e é isso que está em risco”.

Não é a primeira vez que a pesca de salmão despenca no rio Yukon e seus afluentes, mas os números recordes dessa baixa são particularmente angustiantes. Um grande trecho do rio Yukon tem apenas duas das cinco espécies de salmão encontradas no Alasca: chinook e chum.

“Quando falta uma espécie, ficamos meio chocados, mas estamos bem porque sabemos que podemos comer do outro estoque”, disse Ben Stevens, gerente da comissão de recursos tribais da Conferência de Chefes de Tanana. “Mas neste ano a coisa está sem precedentes, porque não temos mais nenhum estoque”.

O salmão chinook do rio Yukon está em declínio há décadas, diminuindo em tamanho e quantidade com o passar dos anos. A região também está testemunhando a morte em massa da espécie. Em 2019, milhares de carcaças de chum apareceram às margens do rio Yukon e seus afluentes, o que os cientistas atribuíram ao estresse calórico causado pela temperatura da água, em torno de 21 graus Celsius, cerca de 5 a 7 graus mais alta do que o normal para a região.

Embora o aquecimento das águas possa criar um habitat inóspito para o salmão chum, algumas pesquisas indicam que o calor beneficiou o sockeye na baía de Bristol, por causa do aumento da oferta de alimentos para os salmões jovens.

Alguns processadores de peixe estão doando o excesso de peixe da baía de Bristol para comunidades ao longo do Yukon. A SeaShare e outros processadores de peixes do Alasca estão coordenando doações, e mais salmão deve ser enviado nas próximas semanas.

“É muito emocionante ver nossos companheiros do Alasca estendendo a mão e fazendo doações”, disse Stevens. “Estou meio triste por termos permitido que a situação ficasse assim tão ruim”.

Stevens é um atabascano Koyukon de Stevens Village, uma pequena comunidade a noroeste de Fairbanks, Alasca, onde o Gasoduto Trans-Alaska atravessa o rio Yukon. Ele visitou a região em julho para ouvir como as comunidades estão lidando com a pesca insuficiente. Ele disse que as pessoas têm medo de um inverno sem comida e das consequências que vêm com o afastamento da terra e dos animais. Com a perda de peixes também vem “a incrível perda da cultura”, disse Stevens.

A carne colhida da terra é um alimento essencial para as pessoas que vivem fora do sistema rodoviário do Alasca, cujas comunidades são acessíveis apenas por barco ou avião. Os altos custos de envio e os longos tempos de viagem deixam os alimentos frescos nas lojas proibitivamente caros e limitados; o costume de conseguir alimentos junto com amigos e familiares remonta a milhares de anos.

A escassez de salmão também significa a inexistência de acampamentos de pescaria – uma prática anual de verão onde as famílias se reúnem ao longo dos rios para pescar, cortar e preservar o salmão para o inverno, onde importantes lições de vida e valores são passados para a geração seguinte.

“Saímos e passamos nossa tradição de milhares de anos dos mais velhos para os mais jovens”, disse PJ Simon, chefe e presidente da Conferência de Chefes de Tanana. “Esta é a nossa alma. Esta é a nossa identidade. E é aí que obtemos nossa coragem, nossa habilidade e tudo que nos trouxe até onde estamos hoje”.

O futuro das pescas de salmão no rio Yukon continua incerto. Mas ainda há tempo para os pescadores da região se adaptarem aos efeitos das mudanças climáticas e às diferentes abordagens de gestão, disse Singh, da Conferência de Chefes de Tanana. Se o salmão conseguir se recuperar, então “nossos filhos serão pescadores”, disse ela.

“Não devemos concluir que as mudanças climáticas vão mudar nossa pesca a ponto de termos que desistir de nossa identidade”, disse Singh. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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