Por Matrcelo Godoy – Estadão
O brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior foi uma das poucas testemunhas de uma cerimônia única na história da República: a troca de comando do Exército em que o general nomeado por um presidente cedia o cargo para o general indicado pelo seu sucessor, o presidente eleito, sem que este tivesse tomado posse ou tivesse acesso ao Diário Oficial.
Era 30 de dezembro de 2022. Deixava o comando Marco Antônio Freire Gomes – o homem que impediu o golpe de Estado pelo qual o então presidente Jair Bolsonaro seria condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao lado de outros 20 militares, entre figuras palacianas e oficiais das forças especiais, os kids pretos – e assumia a Força Terrestre, o general Júlio César de Arruda, indicado por Luiz Inácio Lula da Silva.
A mudança parecia fechar a porta aos adeptos do golpe, ainda que um importante general tenha contado à coluna que viu seu colega Mário Fernandes ir ao gabinete de Arruda com a proposta de que o novo comandante, também um kid preto, se colocasse adiante do movimento que Freire Gomes se recusou a comandar. Pouco depois do fim da solenidade fechada, no quartel-general do Exército, em Brasília, o telefone do brigadeiro Baptista Junior, então comandante da Força Aérea, tocou.
O que se passou a seguir está descrito em cinco páginas que ocupam o capítulo 8 e duas do caderno de imagens do livro Eu disse não! Uma trincheira antigolpista, lançado na quarta-feira, dia 23, em Brasília (ed Autêntica, 238 págs.), por seu autor, o brigadeiro Baptista Junior, o BJ. A exemplo de Freire Gomes, o comandante da FAB foi uma das principais testemunhas sobre a tentativa de golpe no processo do STF.
E é ali que ele traz quatro fotografias históricas e inéditas: únicos registros conhecidos do que a oposição ao governo Bolsonaro chamou de “fuga” do então presidente, no dia 30 de dezembro, quando ele viajou para Miami em um avião da FAB, deixando o Poder Executivo do País nas mãos do vice, o general Hamilton Mourão, tudo para não ser obrigado a transmitir a faixa presidencial ao seu sucessor, o petista Lula da Silva.
Na primeira das imagens, Bolsonaro e Michelle deixam as instalações da Base Aérea de Brasília ladeados pelo comandante da FAB e pelo então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e seguidos por integrantes da escolta presidencial. A segunda imagem mostra Bolsonaro, visivelmente contrariado, passando pela guarda de honra da Aeronáutica e caminhando sobre o tapete vermelho, em direção ao brigadeiro BJ, que o aguardava próximo da escadaria do Boeing presidencial.
Outra duas imagens ocupam a página seguinte. No alto, Bolsonaro é retratado de costas, em direção ao brigadeiro, que lhe presta continência pouco antes da escada. Bolsonaro veste uma camisa azul de mangas curtas e uma calça azul escuro. A quarta e última fotografia exibe o presidente com cara de poucos amigos, apertando a mão de BJ. Foi a última vez que os dois se cumprimentaram. Foi o brigadeiro que pediu a um subordinado que fizesse as imagens, pois percebera a dimensão histórica do momento.
BJ conta em sua obra que foi o comandante da Base Aérea que lhe telefonou informando que o presidente e a mulher, Michelle, estavam ali para embarcarem para os Estados Unidos. Pouco antes, Bolsonaro se despedira de seus eleitores em um post nas redes sociais. Ao saber disso, o brigadeiro determinou que fossem preparadas a guarda de honra e o tapete vermelho que aparecem nas fotografias. E determinou que o presidente fosse mantido na Sala Presidencial, para onde se dirigiu.
Baptista Junior telefonou para o ministro da Defesa, que lhe disse que também estava seguindo para base. Ao entrar na sala, BJ encontrou apenas duas pessoas: Bolsonaro e o então presidente dos Correios, o general Floriano Peixoto. “Bolsonaro estava visivelmente abatido. Pela dimensão histórica do momento, pedi a um dos meus auxiliares que tirasse fotografias do embarque presidencial. Guardei aquelas imagens e jamais divulguei publicamente até a preparação deste livro”, escreveu BJ.
O brigadeiro conta que Michelle chegou à Sala Presidencial pouco depois, e ali também compareceram o ministro das relações exteriores, embaixador Carlos França, e o general Augusto Heleno, ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional (GSI). “Estranhei a ausência do vice-presidente, Hamilton Mourão, que com a saída de Bolsonaro do País passaria a assumir as responsabilidades e autoridades do cargo, transmissão essa geralmente feita formalmente no local de embarque”, escreveu BJ.
De fato, Bolsonaro só informou o vice de sua partido para os EUA pouco antes da decolagem. Na mensagem de WhatsApp, pediu que Mourão, segundo o brigadeiro, assinasse dois ou três decretos. Na pista da base foi feita a última saudação formal ao presidente. Com ele e sua mulher, embarcaram o ajudante de ordens Mauro Cid e alguns integrantes de sua equipe de segurança. BJ determinou aos pilotos que estivessem em Brasília na noite seguinte, independentemente de qualquer orientação que recebessem de outras pessoas.
Talvez, o brigadeiro tenha sentido o cheiro de queimado. É possível que a partida de Bolsonaro fosse interpretada por alguns como um plano sebastianista, no qual o presidente derrotado nas urnas previsse uma volta triunfal nos braços do povo, desembarcando do avião presidencial depois de Lula ser deposto por um “levante popular”, como o encenado no dia 8 de janeiro. Com a partida, Bolsonaro deixava a Presidência e o Brasil para onde só voltaria no ano seguinte para enfrentar as investigações que o levaram para cadeia.
Foi só à noite que o brigadeiro tomou conhecimento do último pronunciamento de Bolsonaro, feito por meio do Youtube, quando reconheceu “limitações constitucionais para medidas mais extremas”, ao dizer que determinadas ações não dependiam apenas de “pegar uma BIC e assinar”. O brigadeiro sabia exatamente o sentido daquelas palavras, pois a minuta do golpe lhe fora apresentada assim como ao general Freire Gomes. E foram eles que impediram que a BIC do presidente assinasse o decreto.

“Ao assistir àquela despedida, tive a impressão de quer Bolsonaro deixava transparecer frustração por não ter obtido os apoios institucionais que julgava necessários para avançar em determinadas medidas”. O momento decisivo naquele equação foi o posicionamento das Forças Armadas. Bolsonaro concluiu, então, seu pronunciamento, dizendo que o mundo não acabaria no dia 1º de janeiro. Tinha razão. O mundo não acabou. Ele foi preso e BJ nos legou seu livro.
“Ao decidir escrever este livro, optei por registrar fatos e percepções que poderiam facilmente permanecer restritos à memória daqueles que viveram aqueles acontecimentos. Faço por acreditar que a preservação da verdadeira história também representa uma forma de compromisso com o País, coma democracia e com suas instituições”, concluiu o brigadeiro. Palavras fortes em qualquer época.
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