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Ataque ao Irã pode afetar energia, fertilizante e o bolso do americano, diz Mendonça de Barros

A política externa dos Estados Unidos é casuística e o ataque ao Irã foi meramente oportunista, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. Isso porque haverá uma série de efeitos nocivos para os próprios americanos, além de aumentar a energia e os recursos despendidos com o exterior − preocupação abominada pelos eleitores do MAGA (Make America Great Again), o slogan com o qual Donald Trump venceu as eleições.

O impacto dos contra-ataques iranianos só será sentido caso a guerra efetivamente dure mais do que algumas semanas. Porém, já começou a afetar os mercados de petróleo e gás, além do setor aéreo. E pode vir a impactar as áreas de fertilizantes e seguros. “O fato de o Irã ter atacado os vizinhos foi surpreendente, mas foi obviamente intencional, para aumentar esse tipo de dano”, diz Mendonça de Barros.

Ele falou sobre esses e outros assuntos, na entrevista a seguir:

Os ataques ao Irã foram mais graves do que outras decisões surpreendentes de Trump?

Foi uma decisão oportunista. Pelas declarações do ministro das relações exteriores de Omã, as conversas entre os dois países vinham avançando, com concessões do Irã, quando o serviço de segurança dos Estados Unidos detectou uma reunião de cúpula e decidiram pelo ataque na hora. Foi simplesmente oportunismo. Também foi exatamente o oposto em relação aos discursos anteriores de Trump, que fez campanha dizendo que era o homem que ia acabar com as guerras. Mas, inequivocamente, iniciou mais uma. É algo surpreendente em muitos aspectos, mas a política externa americana tem sido assim: com decisões pontuais, sem ter uma estratégia deliberada.

O que pode acontecer do ponto de vista econômico?

Além de ser uma decisão oportunista, os americanos esperavam que isso detonaria uma rebelião popular, levando a uma mudança de regime, mas sem colocar invasores no terreno, já que o Irã é um país grande, com 90 milhões de habitantes. Ouvi de várias pessoas que não tem na história um exemplo de mudança de regime só com ataque aéreo. Então nossa hipótese é que não haverá uma mudança de regime e, portanto, essa situação de conflito deve durar mais tempo do que simplesmente aquele outro evento, de um ataque só. Não tenho a menor ideia da duração mas, se for mais do que três ou quatro semanas, já é suficiente para produzir resultados econômicos efetivos. Nesta hipótese, achamos que existem alguns efeitos realmente relevantes.

Quais são eles?

É interessante observar que o Estreito de Ormuz na prática foi fechado sem que existisse uma ação anunciada de fechamento. É quase um perigo de gol passar lá. Todos os grandes transportadores decidiram usar o Cabo da Boa Esperança e isso não vai mudar. Assim, é razoável a gente imaginar primeiro um efeito de alguma expressão no preço do petróleo. O cenário de petróleo, exceto por razões de segurança e muito ligadas ao Oriente Médio, é de abundância de oferta. A Agência Internacional de Energia mostra que o aumento de oferta em 2025 foi de quase 3 milhões de barris e a projeção para 2026, é de 2,5 milhões. O aumento de demanda em 2025 foi de algo como 700 mil barris e a projeção para este ano é de 800 e poucos mil barris. Logo, é de um aumento de estoques e pressão para baixo de preços. Não fossem as questões de segurança, o preço estaria bem abaixo dos US$ 70, indo buscar os US$ 60. É razoável supor que, se durar um mês, esse aumento de preço de petróleo vai ficar por um certo tempo.

Quais outros efeitos?

Há uma pressão no preço do gás natural porque o Irã fez uma coisa para mim surpreendente que foi atacar os vizinhos. Não era algo esperado. Obviamente que foi intencional, para aumentar o tipo de dano. O Catar é o maior produtor de gás natural do mundo e, ao atacá-lo, o Irã fechou a produção. Com os ataques em Dubai houve uma ruptura no transporte aéreo. Doha é um hub de enorme importância, não é só turismo, é também negócios, tem de tudo. Pode ter um efeito importante em cima de negócios e turismo que, normalmente, não acontece, mas lá é, de fato, muito grande. Se a guerra prevalecer por mais de um mês, os preços dos seguros internacionais, evidentemente, vão subir. No mínimo porque vão andar mais para levar a mesma carga e o risco é maior. O último grupo de produtos a considerar é o de fertilizantes e matérias-primas de fertilizantes. Pelo Estreito de Ormuz passam entre 20% e 50% de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e enxofre. É um efeito grande.

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