Para nunca esquecer
Ex-chefe da Aeronáutica presta relevante serviço ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe. Não esqueçamos isso, considerando que o nome Bolsonaro estará nas urnas
O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, prestou um relevante serviço ao País ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe de Estado nos estertores de seu governo, a fim de impedir a posse do então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Quatro anos depois, as memórias de Baptista Junior sobre aqueles fatídicos dias, reunidas no livro Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista, servem como uma espécie de vacina contra o esquecimento coletivo de um fato gravíssimo – ainda mais considerando que o sobrenome Bolsonaro está de novo nas urnas.
A rigor, os relatos do militar confirmam o que já se sabia, ainda que Baptista Junior os registre com os detalhes de quem foi personagem da história. Lembremos que toda a trama golpista foi passada a limpo durante o julgamento da Ação Penal 2.668, no Supremo Tribunal Federal (STF), ao final da qual Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão em regime fechado. Esse registro, porém, tem o peso de ter sido feito não apenas por um oficial de alta patente, mas por um comandante militar que jamais foi hostil a Bolsonaro – muito pelo contrário. Baptista Junior é uma testemunha insuspeita daquela sedição.
Como relata o militar, houve, sim, uma articulação liderada por Bolsonaro para impedir a posse de Lula, legitimamente eleito em 2022. Houve, sim, pressão do então presidente da República para que os comandantes das Forças Armadas aderissem à sua aventura golpista, sob o disfarce de estado de defesa ou Garantia da Lei e da Ordem. Houve, sim, a tentativa de Bolsonaro de isolar a Aeronáutica das deliberações insurgentes. Para Bolsonaro, afirma Baptista Junior, bastava cooptar a Marinha – de resto submissa pela adesão do almirante Almir Garnier, outro criminoso condenado na Ação Penal 2.668 – e o Exército, evidentemente, para consumar o golpe.
O pior só não aconteceu porque, quando Bolsonaro comunicou aos chefes militares que pretendia cancelar o resultado da eleição na qual foi derrotado, o então comandante do Exército, general Freire Gomes, ameaçou prendê-lo. Foi essa a linha vermelha que, segundo Baptista Junior, poupou o Brasil de uma ruptura institucional.
Talvez jamais saibamos se Exército e Aeronáutica se opuseram ao golpismo de Bolsonaro por convicção democrática de seus comandantes ou porque estes avaliaram que não havia as chamadas condições objetivas para um golpe de Estado. Mas, para o País, isso importa menos do que analisar os fatos relatados por Baptista Junior como o retrato do espírito golpista que animava desde sempre o presidente Jair Bolsonaro, em flagrante contraste com seu discurso em defesa da “liberdade” e da “democracia”.
Que não haja ilusões: toda palavra que sair da boca de um Bolsonaro em favor da democracia será falsa. O clã Bolsonaro, forjado na política sob o signo da irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988, está indelevelmente associado a golpismo. Ainda que sem uma nesga do carisma de Jair, Flávio Bolsonaro regurgita as mesmas mentiras do patriarca sobre as urnas eletrônicas. Recorde-se, também, que, em junho do ano passado, em entrevista à Folha de S.Paulo, Flávio ameaçou usar a força contra o STF caso a Corte julgue inconstitucional a concessão de eventual indulto ou anistia para seu pai e outros golpistas do 8 de Janeiro. Livrar Jair Bolsonaro da prisão e encabrestar o Supremo – ou seja, duas pautas autoritárias – é a única agenda que importa para Flávio nesta campanha.
Por mais que preocupe, nada disso surpreende. Jair Bolsonaro já defendeu o assassinato de Fernando Henrique Cardoso. Já pugnou pelo fechamento do Congresso. Já afirmou que a ditadura militar “matou pouco” no Brasil. Na campanha de 2018, prometeu “fuzilar a petralhada”. A violência é, sim, um ativo eleitoral para essa família. Mas é, antes de tudo, um desvio de caráter. Flávio, nesse sentido, teve a quem puxar.
A sociedade brasileira, amadurecida por décadas de vida democrática, já deu mostras suficientes de que não aceita o golpismo. Mas isso não significa que não haja risco envolvendo um candidato que só existe na vida pública em razão do sobrenome que ostenta – e que está indelevelmente ligado ao inconformismo com o fim do regime militar e com a democracia.
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